terça-feira

Sem título VI

Nunca te compreendi, seus jeitos e maneiras. O modo como você sempre parece estar sob tortura.

Você me esconde coisas e isso me confunde, pois sempre achei que confiasse em mim. O bastante para me contar, pelo menos.

Mais confuso ainda? O jeito como me diz tão firmemente que eu sei de tudo o que acontece. Será que realmente sei? Nem fodendo. Você não deixa.

Ou talvez o que você diga é verdade, mas então não faria o menor sentido ter uma posição tão martirizada o tempo todo. A não ser que você não seja forte, seja mariquinha. Mas sei que você não é.

Então... porque não deixa eu me envolver? Talvez eu possa te ajudar a acabar com todo o sofrimento, afinal.

Ou talvez não, talvez você tenha tomado a decisão certa em se esconder de mim. Talvez a culpa seja apenas minha. Peço desculpas, então. Me perdoa?

A não ser que você goste disso tudo, seja tão masoquista a ponto de viver atolada na merda até os joelhos e gostar da sensação...

quinta-feira

Sem título V

Medo.
Medo de me foder.
Medo de amar.
Medo de me arriscar.

O que tenho a perder...
não é muito.
Isso devia me dar coragem,c erto?
Não sei. Supostamente, talvez.

Largo as coisas,
desisto fácil.
Não era assim.
Não sei quando mudou.

Preciso de ajuda,
mas não quero pedir.
Tenho medo de me expor.
Medo de não mais poder me esconder.

Me sinto estúpida.
Infantil e assustada.
Há muito parei de ter
a confiança que finjo existir.

Tento esquecer.
Deixar de lado e seguir em frente.
Não me perder,
no meio de tanta gente.

Mas já me perdi.
Fui forçada a isso.
Quando começaram a me esquecer
e não havia mais nada que pudesse fazer.

segunda-feira

Sem título IV

Na geladeira da linda menina havia um pedaço de papel preso com um ímã de arco-iris. Era uma lista das coisas que ela tinha para fazer no dia. Entregaram essa lista para seu suposto melhor amigo quando encontraram-na morta. O garoto imediatamente se sentiu terrivelmente culpado. Rasgou a lista em um milhão de pedaços, mas dois segundos depois desejou não ter feito isso. Essa era a última lembrança que ele jamais teria dela. Por mais que fosse dolorida, era uma lembrança. E lembranças não podem ser jogadas ao vento, aos cuidados do primeiro que as recolher na sarjeta.

Com lágrimas escorrendo por todo seu rosto, caiu de quatro no chão. Mal conseguindo enxergar através da neblina que suas lágrimas formavam, se colocou a remontar a lista. Demorou horas. Pode-se dizer que ele estava realmente desesperado, tremendo, e isso não ajudava em nada a encontrar uma ordem naquelas pecinhas de um quebra-cabeças que precisava ser montado imediatamente, para não correr o risco de ser destruído. Ou pior: esquecido.

Depois de remontar toda a lista, o garoto correu para buscar uma nova folha de papel e um tubo de cola. Com o maior cuidado do mundo, colou pedaço por pedaço da lista na nova folha. Um pedaço de seu coração ficava junto com cada parte da lista, que logo recebeu uma nova estrutura. Ainda com os olhos marejados, recortou a lista do novo papel, seguindo cuidadosamente as bordas do papel original. Ele não queria deixar absolutamente nada de fora.

Rumou até sua cozinha, aonde prendeu a lista da garota em sua geladeira, com o mesmo ímã de arco-iris. Conseguiu até sorrir, mesmo que fosse um sorriso feio, miserável, distorcido pela perda.

Dia após dia, porém, olhava para aquela lista e se lembrava de algum bom momento vivido com a autora dela. Dia após dia, por anos, gastava alguns segundos, alguns preciosos segundos, lembrando-se dela. Dia após dia, sentia sua falta e uma dor lancinante lhe atravessava o peito. Dia após dia, lembrava-se do momento em que lhe contaram a triste notícia. Dia após dia, sentia-se culpado. Dia após dia, desejava poder ter feito algumas coisas diferentes. Dia após dia, desejava ter sido mais presente. Dia após dia, dia após dia, dia após dia.

- Comprar leite
- Ligar p/ Lucy
- Devolver filmes, LOGO!!!
- Ligar p/ mamãe
- Comprar presente do Theo
- Sumir do mundo, para sempre

PS: mas nunca do coração daqueles que se importaram comigo

Sem título III

Eu não quero precisar de você do jeito como preciso. Isso é ruim, me faz mal. Porque agora, sempre que estou sozinha, sinto medo. Sinto falta de sua presença, mesmo que apenas parte dela. Não quero isso. Quero poder ficar sozinha novamente, quero que volte a ser como era antes, quando ficar sozinha podia ser algo divertido. Só dependia de mim.

Agora... ficar sozinha virou tortura - e rotina. Me sinto pressionada pelo universo a fazer coisas das quais não gosto, só para acabar com a sensação de vazio. Porque isso acontece, afinal? É normal se sentir tão amargurada, tão largada no mundo? É normal sentir como se não houvesse mais de um quarto de dúzia de pessoas no mundo que te amam?

Não sei. E tenho medo de saber, acho. Quer dizer, e se eu descobrir que nada disso é normal, que eu sou mais errada do que jamais imaginei ser possível? Me chamem de dramática, mas se sentir como merda 24 horas por dia não é exatamente agradável.

É meio humilhante escrever isso aqui agora e sempre foi humilhante pensar nisso antes. E, claro, sempre será humilhante pensar nisso depois, porque sei que vou pensar nisso depois.

Enfim. É humilhante porque me faz parecer fraca, como se eu não pudesse dar conta de certas coisas. E, acredite, para uma pessoa tão orgulhosa quanto eu, isso pode ser um empecilho e tanto. Então eu tento. Tento deixar quieto, ficar de bom humor, fazer coisas legais, falar com pessoas. Tento esquecer, mudar, não deixar isso me abater.

Mas ultimamente todos os meus esforços parecem se tornar inúteis a partir do momento que saem da minha mente, para ser algo concreto. E ai eu me pego sendo repetida, redundante, escrevendo vezes e mais vezes sobre a mesma droga de assunto. Passo dias e mais dias na frente da tela do computador, lendo frases depressivas, ouvindo músicas miseráveis, me sentindo a ponto de explodir em um milhão de lágrimas com filmes de comédia.

Como isso é possível? Quero dizer... não é como se eu fosse uma pobrezinha dos infernos, que não tem nada. Eu tenho. E reconheço isso. Mas não é suficiente. Talvez não seja suficiente porque o que eu esteja procurando não é necessariamente material. Não pode ser tocado, não pode ser visto, pode apenas ser sentido. Mas em uma pessoa como eu, tecnicamente classificada como desgraçada-insensível-do-coração-peludo, é basicamente impossível encontrar coisas apenas sentindo-as.

Certo?