quarta-feira

Parte um

Antes mesmo do amanhecer, Nina já estava fora da cama. Vestida com o vestido branco mais leve que conseguiu encontrar em seu armário, abriu a janela e saiu de seu quarto, no segundo andar.

Sorte. Ela tinha sorte por bem na frente da janela de seu quarto ter uma árvore que era fácil de ser escalada. Ainda apoiada no peitoril, fechou a janela e desceu até o chão, aonde seus pés descalços traçaram uma trilha já intimamente conhecida até a praia.

Naquela hora a praia estava deserta, ela sabia disso. E era justamente por isso que ela estava indo exatamente para lá, exatamente naquela hora. Era quase como se uma força cósmica a acordasse todos os dias, naquele mesmo horário, e a puxasse para fora da cama, em direção à praia, aonde ela iria andar por exatos 5km, virar à esquerda, virar a esquerda de novo e andar novamente exatamente 5km, até a janela de seu quarto, aonde escalaria a árvore novamente e se recolocaria na cama, aonde voltaria a dormir.

Era uma rotina bizarra, sim, e ela ainda não sabia exatamente porque fazia isso todos os dias, todos os meses, todos os anos. Tudo que ela sabia, era que não se importava. A caminhada era tão relaxante quanto um banho quente após uma chuva pesada em Chicago poderia ser.

Quando chegou à praia, posicionou-se no lugar de sempre, na beira da água, e andou em linha reta. Seus passos eram tão suaves e leves que não produziam nenhum tipo de ruído. E, curiosamente, também não deixavam nenhuma pegada para trás, mas ela parecia nunca ter notado isso.

Ainda que ele tenha notado. Havia um mês ele havia descoberto essa garota misteriosa, que andava pela praia todos os dias exatamente quando o sol estava nascendo. Seu cabelo preto, comprido e ondulado reluzia tons misteriosos de azul quando os primeiros raios de luz atingiam-na.

Mas essa não era a única luz que ele, Josh, podia ver. Mesmo quando as manhãs eram nubladas, não deixando os raios de sol penetrarem através das nuvens até atingierm o cabelo preto da garota, ele via uma luz. Uma luz prateada, que, curiosamente, irradiava dela.

Ela se afastava, sua cmainhada em ritmo constante. E, pela primeira vez desde que começara a observá-la, ele se moveu. Saiu de seu esconderijo e andou cautelosamente agtrás dela, desejando que seus passos fossem tão silenciosos quanto os da garota à sua frente.

segunda-feira

Almost

Sentada na areia, Katherine tinha uma boa visão do horizonte a sua frente. O céu estava claro, porém uma onda de neblina cobria o topo dos prédios e deixava o clima dali mais frio.

Não tinha ninguém ao lado dela, e isso era bom. Na verdade, não tinha ninguém ali, apenas ela. Ela e a imensidão azul que se estendia à sua frente.

Com os braços cruzados em torno dos joelhos, os cabelos soltos e revoltados ao vento... ela pensava. O único som que ela conseguia captar era o de ocasionais gaivotas pairando acima de sua cabeça.

Mas isso só servia para deixar o cenário ainda mais bonito. Quase perfeito. Quase. Algo estava faltando. Algo minúsculo, mas talvez o mais importante da coisa toda. O que faltava? Um pedaço de seu coração, que há muito tempo se queboru em milhões de pedaços que se espalharam pelo mundo.

domingo

Garoto do Trem

Olhos azuis, cabelo preto, estatura mediana. Voz não muito grossa, não muito fina. Risada musical, gestos intrigantes, manias fascinantes. Se chama Garoto do Trem, tem 1* anos, trabalha com *****.

Ao seu lado, uma Garota do Trem. Observo seus atos perto dele, do Garoto do Trem. Tento, assim, descobrir o que eles são. Um casal? Bons amigos? Apenas conhecidos? Não sei. É difícil descobrir.

A conversa deles é casual, pelo que percebo. O Garoto do Trem conta para a Garota do Trem de como seu pai fica quando está bravo. O Garoto do Trem imita seu pai e a Garota do Trem ri. Sua risada não é musical, como a do Garoto do TRem. É só alta e irritante, quase histérica.

Percebo que ela tenta impressionar o Garoto do Trem. O Garoto do Trem é mais alto que a Garota do Trem, então quando ela olha para ele, de baixo, olha através da grossa franja de cílios escuros que cobrem seus olhos orientais. Ao meu ver, o Garoto do Trem não se incomoda o suficiente para ao menos notar o que a Garota do Trem está tentando fazer.

Percebo, então, que o Garoto do Trem e a Garota do Trem não são nada. Nada de mais, quero dizer. A Garota do Trem é tão importante para o Garoto do Trem como um papel amassado de chiclete é importante para um exevutivo que o guarda em seu bolso pelo simples fato de que esqueceu de jogá-lo fora.

Aproveito para observar ainda mais o Garoto do Trem, notar todos os seus atributos. Minha lista mental de pontos positivos cresce à medida que o observo atentamente, prestanto atenção no que ele diz e em como seus lábios se movimentam ao fazê-lo. É simplesmente hipnotizante.

Seus olhos azuis claros, beirando o cinza, encontram os meus por alguns segundos e nos encaramos. Vagamente noto que ele parou de falar no meio de uma frase, simplesmente para olhar para a Garota do Trem 2 que tanto o olha (que, caso não esteja tão óbvio como pensei, sou eu).

Nestes breves segundos, travamos uma longa conversa apenas com nossos olhares. Até que a minha estação chega e eu preciso descer. Descer e andar para longe do Garoto do Trem. Para sempre.

Me levanto e corto nosso intenso contato visual, caminhando até as portas que acabaram de se abrir. Olho para trás uma única vez, antes das portas se fecharem novamente. Quando o faço, nossos olhares se cruzam novamente. O meu e o do Garoto do Trem. E naquela despedida muda, fica claro que nos encontraremos novamente. Não necessariamente neste planeta e nesta forma. Talvez nem mesmo neste milênio. Mas nos encontraremos novamente.

sexta-feira

Desejos

Ninguém nunca me disse para ter cuidado com meus desejos. Pelo menos, nunca disseram isso diretamente para mim. Acho que há alguma diferença de quando você ouve um conselho ao acaso e quando ele é dito especificamente a você.

E eu quero fazer a diferença. Por isso, agora, digo para você, leitor: cuidado com o que deseja.

Não por não saber que o quer pode mesmo se realizar e se arrepender eternamente de tê-lo desejado. Não. Isso é a maior bobagem.

O que estou dizendo é para ter cuidado com a intensidade com que se deseja, não se deixar levar completamente. E talvez a parte mais importante desse texto todo: sempre tenha uma válvula de escape, por mais precária que seja.

Como dizem os ditados de tia: quanto maior o pulo, maior a queda. E claro que não estou dizendo que você, leitor, não deve nunca se arriscar. Porque, sério, você seria um bosta se fizesse isso. Só deve pensar bem, calcular a distância e a velocidade do salto necessário para chegar do outro lado do penhasco.

Pois todos já esbarramos, pelo menos uma vez na vida, com o gosto da derrota. Um gosto amargo, enferrujado, do fundo da garganta. E quando esse gosto sobe, meu caro leitor, tudo que poderá fazer será se debulhar em lágrimas e desejar um abraço de sua mãe, lhe dizendo que tudo vai ficar bem. Quando, obviamente, ninguém pode ter tanta certeza disso.

terça-feira

Odeio, odeio, odeio

Te odeio quando estamos juntos. Odeio o jeito como você fala, como você segura os talheres na hora do jantar, como sobe as escadas tão devagar que parece que o mundo entrou em câmera lenta. Odeio seu jeito esnobe, sua arrogância quando prova que estou errada, sua falta de senso crítico. Odeio suas piadas sem graça, as blasfêmias que diz e as merdas que faz. Odeio como me envergonha na frente de sua família, como me humilha no meio da sua roda de amigos, como consegue acabar com o meu bom humor em segundos. Odeio como me chama de gatinha, como me exibe para o mundo como se fosse um troféu, como me faz de sua empregada.

Odeio como você nunca tem tempo para me agradar, como é difícil arrancar um elogio de você, como suas conversas são fúteis. Odeio como nunca quer ficar em casa, como nunca quer ver um filme comigo, como nunca perde uma oportunidade de ficar longe de mim. Odeio tudo isso em você e mais, muito mais. Posso passar o dia listando tudo em você que desperta esse sentimento em mim. Mas sei que, quando finalmente acabar a lista, ao relê-la, vou abrir um sorriso. Porque por mais que eu odeie tudo em você, quando você está longe eu percebo o quanto gosto de você. De um jeito todo errado, mas gosto.

domingo

But that was just a dream, just a dream...

Eu sonhei com você esta noite... de novo. Neste sonho, nós estávamos em um bosque cheio de flores de todas as cores. Simplesmente a coisa mais linda que já tinha visto na vida.

Algumas borboletas salpicavam o ar com suas combinações vibrantes, deixando a paisagem toda muito viva e agradável. Nós estávamos sentados ao pé de uma árvore e seus braços me envolviam de um jeito tão suave que se eu não fosse tão ligada no seu toque poderia até esquecer por breves momentos que você estava ali, comigo.

Respirei fundo, desejando poder gravar o cheiro daquilo tudo em minha mente, porque era simplesmente bom demais para algum dia ser esquecido. Desejei que meus olhos tirassem fotos, para eu poder levar aquela paisagem comigo, não importasse para onde eu estivesse indo.

E, mais que tudo, desejei que tudo fosse a realidade. Em algum momento, me dei conta de que era apenas um sonho e que, quando acordasse, tudo voltaria ao seus eixos, tornando impossível nós dois existirmos ao mesmo tempo. Foi quando aquele sonho virou um pesadelo. O pior de todos.

quinta-feira

Apenas uma garota

"Para quem vê, ela é apenas uma garota com idade mental de cinco anos.

Para quem conhece, ela é apenas uma garota irônica.

Para os poucos que têm a oportunidade de realmente entrar em seu mundo, é apenas uma garota que não é nada que aparenta."

by Jesse

Você fala que está tudo bem. Mas não está.

Eu falo com você e você fala comigo. Eu falo mais ainda com você e você me fala que estou diferente, estranha. Me pergunta o que aconteceu. Eu falo que não aconteceu nada, e continuamos nos falando.

Até que você novamente fala que estou diferente, e me pede para falar o que que é. E eu falo. E você fala comigo, tenta responder de uma forma legal. E então eu falo mais, mas são coisas estranhas demais de serem faladas, coisas que provavelmente você não estava preparado para ouvir porque te falaram que eu não era capaz de me sentir assim.

Então você fala que é melhor deixar quieto e eu falo que tudo bem. Mas no fundo não está tudo bem. Não está tudo bem porque eu não devia ter te falado quando você me pediu para falar. Não devia ter falado porque já era certo que eu ia parecer ridícula e você falaria que estava tudo bem, mas estaria rindo internamente, provavelmente me humilhando.

Então eu te falo que não devia ter falado, porque agora eu não falo mais com você e você não fala mais comigo e ninguém fala nada. E quando fala, é só para dizer tchau. Dizer tchau para no dia seguinte falar oi e tudo ser falado novamente.

E quando nos falamos desse jeito... o vazio das nossas conversas me perturba. Então eu preciso falar isso para alguém. E esse alguém é você. E então sinto vontade de te falar que isso é uma merda, que você não pode ser o único a ouvir o que eu tenho a falar. Mas não falo. Porque se não você falaria para deixar para lá e eu falaria que estava tudo bem. E realmente não estaria tudo bem.