Olhos azuis, cabelo preto, estatura mediana. Voz não muito grossa, não muito fina. Risada musical, gestos intrigantes, manias fascinantes. Se chama Garoto do Trem, tem 1* anos, trabalha com *****.
Ao seu lado, uma Garota do Trem. Observo seus atos perto dele, do Garoto do Trem. Tento, assim, descobrir o que eles são. Um casal? Bons amigos? Apenas conhecidos? Não sei. É difícil descobrir.
A conversa deles é casual, pelo que percebo. O Garoto do Trem conta para a Garota do Trem de como seu pai fica quando está bravo. O Garoto do Trem imita seu pai e a Garota do Trem ri. Sua risada não é musical, como a do Garoto do TRem. É só alta e irritante, quase histérica.
Percebo que ela tenta impressionar o Garoto do Trem. O Garoto do Trem é mais alto que a Garota do Trem, então quando ela olha para ele, de baixo, olha através da grossa franja de cílios escuros que cobrem seus olhos orientais. Ao meu ver, o Garoto do Trem não se incomoda o suficiente para ao menos notar o que a Garota do Trem está tentando fazer.
Percebo, então, que o Garoto do Trem e a Garota do Trem não são nada. Nada de mais, quero dizer. A Garota do Trem é tão importante para o Garoto do Trem como um papel amassado de chiclete é importante para um exevutivo que o guarda em seu bolso pelo simples fato de que esqueceu de jogá-lo fora.
Aproveito para observar ainda mais o Garoto do Trem, notar todos os seus atributos. Minha lista mental de pontos positivos cresce à medida que o observo atentamente, prestanto atenção no que ele diz e em como seus lábios se movimentam ao fazê-lo. É simplesmente hipnotizante.
Seus olhos azuis claros, beirando o cinza, encontram os meus por alguns segundos e nos encaramos. Vagamente noto que ele parou de falar no meio de uma frase, simplesmente para olhar para a Garota do Trem 2 que tanto o olha (que, caso não esteja tão óbvio como pensei, sou eu).
Nestes breves segundos, travamos uma longa conversa apenas com nossos olhares. Até que a minha estação chega e eu preciso descer. Descer e andar para longe do Garoto do Trem. Para sempre.
Me levanto e corto nosso intenso contato visual, caminhando até as portas que acabaram de se abrir. Olho para trás uma única vez, antes das portas se fecharem novamente. Quando o faço, nossos olhares se cruzam novamente. O meu e o do Garoto do Trem. E naquela despedida muda, fica claro que nos encontraremos novamente. Não necessariamente neste planeta e nesta forma. Talvez nem mesmo neste milênio. Mas nos encontraremos novamente.

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