Engraçado. Havia muito tempo que ele não se sentia assim, como se algo estivesse faltando no seu dia-a-dia. Mais engraçado ainda era que ele não sabia o que exatamente estava faltando.
Ficou incomodado. Em um lapso de insanidade, levantou-se de sua confortável cama, pegando seu travesseiro e um cobertor. Sem saber direito aonde estava indo com tudo aquilo, deixou seus pés lhe guiarem pelo apartamento luxuoso, que fora presente de seu tio. Acabou na espaçosa varanda, que era toda mobiliada e tal. Ele, particularmente, achava tudo aquilo um grande desperdício de dinheiro, pois não precisava de todos aqueles móveis em excesso.
Empurrou tudo para um canto qualquer e extendeu o cobertor no chão, perto das grades que o impediriam de cair edifício abaixo. Deitou-se ali, de barriga para cima, e se pôs a observar a noite estrelada. Era difícil, pois as luzes acesas da cidade atrapalhavam o caminho que o brilho das estrelas tentava traçar.
Essa era uma coisa que ele definitivamente sentia falta. Ao se mudar para este apartamento, anos antes, morava longe da cidade grande. Quase no meio do mato, sozinho. Morava com seu irmão, mas ele virou um pé no saco depois que se casou e se mudou para a Bélgica com sua nova esposa dondoca.
Ele franziu o nariz com o pensamento, quase como se a esposa de seu irmão fosse mal cheirosa. O que, metaforicamente falando, ela era. Ela fora capaz de afastá-lo da pessoa que mais amara durante toda a sua vida. Ela fora capaz de afastá-lo de seu irmão mais velho, que era tudo para ele: pai, amigo, irmão e, às vezes, até inimigo.
Ele sentia falta de ver as estrelas e de seu irmão. Eram duas coisas que faziam uma extrema falta nos dias de hoje. Não que os dias de hoje fossem ruins, veja bem. Ele conseguiu se acertar, tudo bem. Mas, ao pensar em como tudo era antes... era simplesmente impossível negar que não queria voltar no tempo, por pelo menos um dia. Ele sentia falta de sentir aquilo tudo, sentia falta de estar ali.
Talvez ele pudesse viajar para algum lugar deserto e ligar para seu irmão no dia seguinte. Seria capaz de ver as estrelas e tudo o mais. Mas ele sabia que não seria como antes, nunca mais. Aqueles dias há muito se perderam no passado.
Fechou os olhos, sentindo uma brisa repentina brincar com seus cabelos escuros, levando-os para longe. Suspirou, aproveitando a situação até o último momento. Assim que aquilo acabou, começou aquele sentimento novamente. Aquele sentimento de que nunca mais aconteceria aquilo de novo, não daquele jeito. Ele sabia que tinha que aceitar isso como verdade, abaixar a cabeça e seguir em frente. E era exatamente o que vinha fazendo há muito tempo, mesmo que inconscientemente. Mas as memórias daqueles dias nunca iriam sumir, isso também era algo que... o mundo precisava aceitar como verdade.
Naquele instante, ele se permitiu fechar os olhos e sonhar com tudo aquilo, com o que tudo aquilo representava para ele. Apenas um dia. Apenas um dia e tudo voltaria a seus eixos novamente, a nostalgia iria embora e ele tornaria os dias de hoje tão bons quanto os de antigamente foram. É. Ele faria isso.

2 comentários:
Você, incrivelmente, faz os leitores sentir aquilo que você escreve. Agora eu estou aqui, nostálgica como se nada pudesse melhorar o meu ânimo, graças ao seu texto.
HAHAHA como se nada pudesse melhorar o seu ânimo? Gente. Que crueldade de minha parte...
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