Sinto saudades da minha infância, quando minha maior preocupação era se eu conseguiria ir no balanço no intervalo na escola. Mas isso mudou, de um modo muito repentino, e muito cedo. Cedo demais para uma criança.
Amadureci bastante depois disso. Não que eu quisesse, veja bem... fui forçada a isso. E perdi muitas coisas, por ter amadurecido tão de repente, tão cedo. Sou assim até hoje.
As coisas foram se perdendo no espaço a medida que o tempo foi passando. Perdi minhas companhias mais importantes, roupas, brinquedos, animais de estimação. As coisas começaram a ficar mais sérias quando eu perdi a moradia, o bairro, a escola. Perdi amigos, perdi professores, perdi lugares, perdi manias.
Começar tudo de novo... não foi fácil. Às vezes me pego pensando "como estaria eu hoje se nada disso tivesse acontecido?". Dependendo do dia, penso que estou melhor hoje do que estaria se nada tivesse acontecido. Em outros dias, penso que de outro modo tudo teria saido extremamente diferente, melhor.
Porém, o fato é que aconteceu. E sou hoje como sou, por causa de tudo que aconteceu no passado, cada companhia perdida, cada oportunidade desperdiçada.
Saudades? Muita. Gostaria de ter mantido contato com todos os meus colegas "de berço", gostaria de estar ao lado deles até hoje. Como também gostaria de trazer de volta duas pessoas, com uma terceira vindo de brinde.
Essa terceira pessoa... nós tivemos uma boa relação, um dia. Há muito tempo, conversávamos intimamente - bom, tão intimamente quanto duas crianças de seis e nove anos são capazes. Hoje em dia? Mal nos cumprimentamos e, quando isso acontece, são só em festas de família.
Família. Todos são estranhos, para mim. Primos? Pessoas distantes, presenças desfiguradas. Personalidades desconhecidas. Tias, tios? Estranhos, também. E aí só me sobram pai e mãe, para com os quais já dei muita mancada.
No geral, sou só eu. Eu e minha própria companhia, tentando métodos de diversão independentes, que não precisem de mais ninguém. Funcionam? Por um tempo, talvez. Mas logo a coisa perde a graça, e eu só desejo ter alguém. Mesmo que seja para ficar olhando para o teto.
E, é, não um simples alguém, também. Um alguém que me conhece talvez até mais que eu mesma, alguém que saiba conversar comigo, alguém que saiba me apoiar, quando necessário. Alguém que me escute, me leve a sério. Alguém em quem eu confie a minha vida, de olhos fechados, sem hesitar.
Esse alguém ainda não me apareceu. Mas, sabe, cansei de ser só eu mesma, por minha própria conta. Eu uso uma máscara todos os dias, fazendo as pessoas acreditarem que sou completamente auto-suficiente, que, se eu tiver alguém, uau, que bom. Mas, também, se não tiver, que se foda, posso me virar sozinha.
E posso mesmo. Mas não quero. Não quero porque não tem graça, desse jeito. É horrível não ter com quem compartilhar seus medos e segredos, por mais retardados que eles sejam. É simplesmente horrível, ter um pedaço de papel como seu amigo mais íntimo... O único cujo qual ouvirá seus segredos sem te julgar de nenhuma maneira.
Não mereço mais que isso? Às vezes, penso que não. Mas, sinceramente, não sei quais são os motivos para me punirem de tal forma. Não fiz nada tão ruim assim, fiz? Porque, se fiz, preciso saber o que foi. Pelo menos isso.
Penso em sair da cidade, do estado, do país, do continente... mas penso se não me sentiria ainda mais sozinha, sem nada familiar por perto. Mas acontece que, por aqui, o que é familiar já não me satisfaz mais. Não é suficiente para arrancar um sorriso verdadeiro de mim. Não mais.
E eu cansei de sentir pena de mim mesma. Cansei de ficar sozinha o tempo todo. Cansei de admirar - invejar - pessoas que não tem ninguém e são felizes mesmo assim. Cansei de procurar. Cansei de esperar. Cansei de precisar. Cansei de ter uma multidão de desconhecidos a minha volta, rodeada por milhões de pessoas mas, ainda assim, completamente sozinha. Cansei.

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